Shashamane: Desencanto da Promessa Rastafari

SHASHAMANE, ENTRADA DA CIDADE

SHASHAMANE | Etiópia: Shashamane é a "terra prometida" do mundo Rastafari. Localizada em à margem de uma estreita rodovia no antigo vale de Rift, é uma paisagem caracterizada por árvores esparsas, dotadas de troncos do tamanho de casas que se destacam em meio aos campos cultivados que brilham como o bronze à luz do crepúsculo. Entretanto, apesar do cenário, à primeira vista paradisíaco, Shashamane está longe de ser um paraíso. Desmond Martin, um pioneiro jamaicano que se estabeleceu há 30 anos na terra doada pelo rei Haile Selassie, comenta: "Nós amamos a Etiópia. A Etiópia é a nossa "Terra Santa" mas ainda estamos longe de ser considerados cidadãos etíopes".

Mais conhecidos pela música, o reggae, os cabelos crescidos enrolados em mechas, dreadlocks, as roupas coloridas e o alto consumo de marijüana, os seguidores da fé rastafari celebraram, dia 23 de julho, o mais importante dos seus dias santos, que comemora o nascimento de Selassie, o líder etíope a quem os rastafaris adoram como o "messias negro" [ainda que Selassie não fosse exatamente negro, antes, mestiço...]

Em Shashamane, a festividade tem um gosto meio amargo. Quase meio século depois que os primeiros 12 caribenhos migraram para lá, em busca do sonho de retorno à Terra Mãe, poucos rastafaris são reconhecidos oficialmente como filhos da Etiópia. Pior, os rastafaris perderam 95% da terra que ganharam de Selassie, nos anos de 1970, confiscada pelo regime socialista etíope. O governo da terra-mãe tem sido padrasto. Além disso, os rastafaris da Etiópia têm enfrentado a fome, as revoluções, a desconfiança das autoridades que desaprovam o uso da maconha e o ceticismo local sobre a "divindade" de Haile Selassie.

Apesar de tudo, entre 200 a 300 famílias rastafari persistem no sonho da terra-mãe e formam uma comunidade eclética que inclui pessoas de países caribenhos, do Reino Unido e dos Estados Unidos entre outras nacionalidades. Alguns têm pequenos negócios, outros, trabalham para pequenas organizações. Os etíopes, de cultura bastante conservadora, vêem os rastafaris com uma mistura de curiosidade e condescendência.

Taye Kebede, etíope, professor de escola dominical explica: "Eles [os rastafaris] são boas pessoas que pensam em Shashamane como a terra santa dos negros. Mas nós não aprovamos o uso da droga. Eles estão criando um mercado de consumo de marijüana e alguns fazendeiros cultivam a erva ao invés de batatas". Sobre Selassie, diz o professor; "Nós o conhecemos [Selassie] melhor que eles [os rastafaris] e ele foi apenas um rei e, a certa altura, um governante bastante autocrático".


Retrospectiva Histórica

O rastafarianismo, que surgiu na Jamaica nos anos de 1920, em seus primórdios, era um movimento de consciência negra que re-interpretava profecias bíblicas, contra o racismo e o colonialismo. Os primeiros líderes defenderam o retorno à África dos descendentes de escravos. Quando Haile Selassie, conhecido então como Ras Tafari Mekonen [ou Makonen], foi coroado imperador da Etiópia, em 1930, ele e seu país tornaram-se inspiração espiritual para o movimento.

Selassie jamais se sentiu confortável com a crença rastafari em sua [dele, Selassie] divindade. Todavia, em 1950, ele criou Shashamane: 1.250 acres de terra, 150km ao sul de Adis Abeba, capital do país, para o assentamento dos rastafaris que desejassem viver na Etiópia. Em 1974, Selassie foi deposto e um governo militar socialista assumiu o poder. Nos anos de 1980, a comunidade rastafari estava em uma situação de ostracismo, mal vista pelas autoridades, por conta de sua associação com o ex-imperador. A população rastafari de Shashamene ficou reduzida a cerca de 50 pessoas.

A situação melhorou com a ascenção do governo democrático. O número de rastafaris na cidade vem aumentando lentamente e trabalhadores especializados estão seestabelecendo em Shashamane. O lugar, por sua história e pela aura de religiosidade envolvida em sua fundação, vem se tornando um destino turístico.

Na comemoração do aniversário de Selassie, uma espécie de rasta-natal, milhares de pessoas visitam Shashamene para participar das festividades, embaladas ao som do reggae. A viúva do outro ídolo rastafari, o cantor e compositor pioneiro do reggae, Bob Marley - Rita Marley, simpatizante da comunidade, criou uma escola e uma clínica na cidade.

FONTE: RELIGION NEWS
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