Tambores no Harlem: Tradição x Poluição Sonora
Percussionistas de batidas africanas encontram-se há décadas, aos sábados, durante o verão, No Parque Marcus Garvey, no Harlem - Nova Iorque. Este ano, o evento que começou na noite ritual de 28 de julho [2007], foi alvo de protestos de novos moradores do harlem, os chamados "novos Harlemitas". Para estes, o batuque dos tambores, que se prolonga por horas, é um barulho insuportável. FOTO: AP/Shiho Fukada
No verão, nos sábados à noite, milhares de tambores entoam os ritmos mesmerizantes africanos, um ritual que se repete a décadas no Parque Marcus Garvey, Harlem, Nova Iorque. Este ano [2007], os Harlemitas, novos moradores do Harlem, estão reclamando contra a tradição do bairro.
Beth Ross, moradora de um luxuoso edifício de apartamentos construído próximo ao Parque comenta: "Os tambores africanos são maravilhosos nas primeiras quatro horas, depois, é puro barulho e todo o apartamento se torna uma terrível caixa de ressonância. Não se tem sossego na sala, no quarto ou na cozinha. Não há saída exceto deixar o apartamento".
A queixa de Ross reflete o mais recente conflito comunitário do Harlem, onde a rápida proliferação de novos prédios residenciais e hotéis está mudando a face do bairro que, por muito tempo, foi considerado o coração da cultura negra norte-americana. O Central Harlem, onde fica o Parque M. Garvey, é especialmente atrativo, com suas muralhas de pedra e igrejas do século 19 [XIX], da chamadaGilded Age [entre 1870 e 1890, período pós-guerra civil - LINK: GILDED AGE | WIKIPEDIA].
O Parque era formalmente conhecido como Mount Morris Park, quando foi criado, em 1880, época em o Harlem tinha população branca predominante. Foi renomeado em 1973, quando o líder negro [Garvey] advogou a autonomia negra para o bairro, como se o Harlem devesse passar a ser uma província ou cidade independente de Nova Iorque.
O influxo de "forasteiros" intensificou-se há seis anos, quando o ex-presidente Clinton instalou seu escritório em uma rua próxima ao pareque. a iniciativa encorajou outros a se mudarem para as vizinhanças. Os novos moradores, com seus próprios hábitos e cultura, estão promovendo mudanças no perfil do Harlem. Para os antigos residentes, características e tradições mais queridas do bairro estão sendo destruídas.
Um jardim comunitário foi transformado em via de acesso para alguns dos novos e elegantes apartamentos, em área próxima ao futuro Museum of African Art. Enquanto isso, o Copeland's, um restaurante que funcionava há mais de 50 anos, foi fechado em julho [2007] vítima do que o proprietário identifica como mudanças demográficas e, consequentemente, mudança de paladar.
James David Manning, 60 anos, pastor da Atlah World Missionary Church explica: "Eles chamam isso de nova Renascença do Harlem, trazendo pessoas que podem pagar por essas propriedades caras e expulsando aqueles que não podem pagar, como professores e funcionários municipais". A original Harlem Renaissance floresceu na literatura, teatro, música, artes plásticas, durante as décadas de 1920 e 1930, quando escritores negros, músicos e outros artistas tornaram-se famosos, como Zora Neale Hurston, Josephine Baker, Duke Ellington entre outros.
Os novos apartamentos custam entre 400 mil a 4 milhões de dólares. O "conflito dos tambores" começou neste verão [2007] reunindo 23 representantes dos novos complexos residenciais. Os queixosos já conseguiram que os músicos fossem deslocados para o interior do parque, como medida para amenizar a poluição sonora.
Para os percussionistas e aqueles que os apoiam, o Sábado-ritual dos verões, que começaram a acontecer em 1969, são parte de sua história e cultura. Benjamin Thompson, guarda de segurança aposentado, lembra que alguns deses tambores são adorados e abençoados na África. Carl Alexander, 71 anos, professor aposentado, toca no evento a 34 anos: "As pessoas vêm tocar por razões espirituais. Entretanto, para os novos harlemitas, os tambores são uma fonte de desconforto e a eliminação das longas horas de percussão são uma questão de qualidade de vida.
FONTE: NEWS YAHOO | AP